ESTATÍSTICA DIÁRIA

ADMIRADORES DAS IDEIAS

quarta-feira, 26 de junho de 2013

I LIVRO - DENDROCLASTA - SÃO PAULO, 1988


PRIMEIRO LIVRO, lançado em São Paulo, em 18 de junho de 1988, em versos livres que abordam várias temáticas, mas tem como essência a Ecologia, onde DENDRO significa árvore e OCLASTA destruidor. Um livro com poesias que são construídas num vocábulo erudito e alguns neologismos que, às vezes, é preciso pesquisar o Dicionário, até mesmo para quem é denominado de um bom leitor, pois nunca somos sabidos de tudo!

DENDROCLASTA Nas constantes visitas que faço Ao versátil livro dos homens Em busca da amplidão dos conhecimentos Bem como soluções nas diversas dúvidas Das infinidades de palavras que me deparo Existentes em nossa língua tão rica que é, DENDROCLASTA foi uma delas Que veio como uma luz divina Abrindo e desvendando caminhos de minha verve Dando a origem fundamental Do título dessa minha primeira obra. DENDROCLASTA É o que todos somos muitas vezes Quando na candura de nosso status Damos espaço livre ao progresso Ao cortarmos uma árvore para construção de uma casa mais bonita. MC Garcia



NICLES     
     
Me deste motivo    
Na razão do vazio     
do espaço em branco     
No ensejo do acaso     
Da noite taciturna     
No telefone mudo;     
Da madrugada fria      
Na melancolia dos grilos;     
Da situação passageira     
De não escutar uma canção     
De não ouvir um diálogo.     
Espaço do nada     
Na faculdade sentimental     
Como o todo inanimado     
No coração do poeta     
Em síntese poética     
Do não existir da inspiração.   


 
PERENE E EFÊMERO

Macrocosmo reflete beleza
O amor, no entanto é perene
Gente latente quer amar
Beijos cálidos e adustos em veiga
Sapiência infinita do afã
Emana veemente no latíbulo do coração

Efêmero amor afasia
Jocosidade destrói-se
Prélio chega ao epílogo
Idéias mendazes e prosaicas coagem
Desarraigam o que mananciou no coração.




FLERTE DA EUTIMIA

A eutimia com ausência da babel
Faz surgir alvor cerúleo
Pujante como flerte da natureza
E cerce o rócio rutilante
Dá a psicogênia como um asteísmo
Sem contrição, sem sanha
 Mas pulcro e taciturno
Como inefável.

É o flerte da eutimia
Como mito na vida de um ser.




VITORIOSA

Crisântemo fecundo de meu macrocosmo
Inexplicável mistério das existências
Galgas paulatinamente a eminência do pretérito
Na infinita e sublimidade de teu coração

Racionalizas meu ser em síntese real
Eliminas frenesi em mim e em tantos outros
Perseguição trucidante em cacifos
Como postrídio nítido do sempre
Num luzir crepuscular do ocaso moribundo

Diva melindrosa dos ápices perpétuos
Transcendes todas as hipóteses e teorias
Na razão originária dos pré-adamitas
Perene és em conclusões duvidosas da ciência
Em cúpula dos másculos na utopia

A pujança majoritária te submissa
Mas a sapiência prevalece como tirocínio
Emane, no afã de teu coração
Como um arrulho do abissal aos cachopos
Dependentes diretos e autênticos de ti

Imarcescível é a tua jatância ninfa
Universal como lucina, és vitoriosa
Ao cogitares o vindouro sem titubeares.



ESTE CHÃO

Aonde está a originalidade
Da primeira árvore que nasceu?
Os homens construíram cidades
E ela assim, desapareceu

O Chão que pisamos sem maldade
Ali uma existência padeceu
Que só voltará nas saudades
Da carência de teu filho e do meu

O verde vive em extinção
Com o homem em sua razão
Edificando árvores de concreto

Metrópoles, capitalismo, ambição
Progresso, status, poluição
Será que eles estão corretos?!...




MATERIALISMO

Velocidade do mistério
Tiro na escuridão
Enigma do além.
Gritos do silêncio
Choros do anonimato
Pseudônimos feridos.
Devaneios do nicles
Alimento supersticioso;
Sonho da melancolia
Pesadelo da jocosidade;
Pretérito que nasce
Troglodita do presente;
Vindouro que fenece
Primata do sempre.
Canibais mecanizados
Sorrisos metálicos
Mentes computadorizadas
Corações digitais
Sentimentos sintéticos
Paixões espectrométricas
Amor de andróide
Vidas de títeres.
Antiquado sem tabu
Modernismo arcaico
Plenitude do século XX.
Jovens decrépitos
Mentes incontroláveis;
Homens matérias
Aniquilação da natureza.




SELVA METÁLICA

Raízes de aço, de ferro, de pedra
Montanhas e rochedos metálicos
Mil galhos latentes sem folhas
Árvores ocas, cavernas residenciais
Crescem regadas pelo capital
É fértil o objeto e a matéria
Suas flores e seus frutos.
Homens, mulheres Humanos-maquinários
Conscientes e inocentes DENDROCLASTA.
Rios sólidos e cinzentos se cruzam
Às margens, coqueiros e palmeiras em “T”
Interligadas por teias magnéticas
Com enormes aranhas geradoras
Produzindo dos cachos sua luz
Alimentos das noites metaleiras.
Tubarões não nadam, deslizam
Espécies motorizadas uivam
Alimentadas de um líquido precioso
Originado do petróleo e da cana;
Serpentes elétricas rastejam
Guiadas por duas retas paralelas
Desaparecem em cavernas de saídas opostas,
Alimentam-se de formigas em labuta
Sem nunca saciarem suas fomes:
Comem num ponto, vomitam noutro.
Búfalos energizados com chifres nas costas
Se alimentam como as serpentes.
Formigas atômicas, mosquitos férreos
Trabalham em vulcões para sobreviverem;
Lençóis ébanos suspensos nas selvas
Árvores, rochedos, montanhas ofuscas
Produto dos vulcões implantados.
Baleias metálicas sobrevoam velozes
Camufladas nas selvas e nos negros lençóis
Barulhentas, aterrissam nos sólidos rios.
São feras mecânicas que definem frenesi
Talvez, apenas a um DENDRÓLATRA
Como um oásis silvestre em plena “SELVA METÁLICA”.




FALSO PROTESTO

Um ser vivente
Denominaram de homem
E fez-se esse...
Conspirador do futuro
Arrivista da ilusão
Edificador do fictício
No exemplo explícito
Das decepções de suas obras
Sofrida nas sementes
Que desabrocham à vida,
Materializada na inocência
Com máscara de respirar.
O protesto do hoje
No verde que morre
Foi pago e premeditado
Pela própria minoria ativa
(Apóstolos do Dendroclastismo
Que enganam apenas
O futuro de seus filhos - se tiverem.
Insistem fingindo não vê
A existência dessa vida
Que nunca se quer
Causou mal a ninguém.
Cônscios de seus elogios
Emanado do próprio órgão
Em edificarem metrópoles
E desenvolverem a matéria.)
Mundo das capitais
Mundo dos capitais
Avanço progrededor
Progresso predador
Que faz progredir a dor
Nos corações dos homens
Que são Dendrólatras.




RETRATO DA ILUSÃO

Coração humano inseguro
Veemência do anseio mental
Na obsessão do mais, mais e mais...
Inconsciente das conseqüências
Desvirgina o curioso
Na quebra incessante dos tabus
Fazendo do fictício a dor
Das mais puras realidades.

Erudito é o homem na matéria
Autêntico arauto do nicles
Cientista da ilusão;
Transforma a natureza, o amor
Como aperfeiçoa uma máquina;
Edifica o paraíso teórico    
Terra dos homens fantoches;
Láureas das crianças do amanhã
Vítimas dos explícitos mistérios
Geração de minha semente.

Cenas de emoções conspiradas
No jogo imaginário da verdade;
Corações ludibriados, enganados
Nos encantos táticos da propaganda;
Passatempo das vidas caseiras
Na monotonia constante da televisão.

Ligação do nicles a coisa utópica
Vestígios dolosos da realidade
Na fisionomia do retrato ilusório.


COMO FEDE

Te retrato
No alçar cambaleante
Da ave embriagada
Assisto teu semblante
Majestade da grandeza
Como é linda a tua beleza
Miss eldorado
Do mundo metropolitano.

Teu sangue perdeu a cor
Não era escarlate
De incolor passou a negro
Exalando cheiro ruim
Tuas veias estão entupidas
Necessitas de um médico
Talvez, um ecologista
De uma outra dimensão.

Entro em teu coração
Sem está apaixonado
E vejo e sinto
Que estás com marca-passo
Breve a um ataque.

Quero respirar não consigo
Respiro forçado
Exalas um odor horrível
Meus olhos ardem
Sem fogo, sem fumaça
Micróbios se multiplicam
Sem me contaminar
Hippies imundos
Mendigos sujos
Larápios velozes
Homens femininos
Prostitutas estáticas
Que vingam velozmente
Como o vírus da AIDS.

Latrinas, bojos, mictórios
Em calçadas alienígenas
Expostas ao mau cheiro
Urinas e fezes defecadas.

O teu retrato
É como o beijo
De uma mulher que fuma
Ao beijar esse poeta
Que nunca fumou.

Esquece os teus status
Todos são como a moda
Que só faz a estética
Do corpo e de tua fisionomia
Como uma maquilagem
Estragada pelo tempo
Cuida da tua saúde
Que o teu coração
Anda exalando
Um odor indesejável.




PASPRESENDOURO

Lá longe, lá em meu pretérito
Ouvia o cantar dos pássaros
Dos grilos e das cigarras
O latir do cão de Sr. Babá
O relinchar do burro de Sr. Duda
O mugir das vacas no sítio
De minha tia Biía
O cacarejo das galinhas
E o cantar do galo na madrugada
E mais ainda, pela manhã
No terreiro de minha casa
Com a minha logo cedo
Botando milho pra elas;
Os miados dos gatos de D. Maria da Luz
Durante dias e noites.......
..........................................
Hoje escuto um cantar de um pássaro
Que talvez por desespero
Encontrou um recanto, um lugar qualquer
Que nem mesmo sei
Se canta ou se chora
Lamentando-se por ter deixado
O seu convívio com a natureza
Dor ar livre, do ar puro
Ou mesmo do ar sem poluição;
Ao mesmo tempo escuto
O cantar de uma cigarra
Que logo é interrompido
Pelos barulhos dos automóveis
Muitas vezes não se sabe distinguir
Se são os automóveis
Ou se é mesmo a cigarra
Ou ainda se são os nossos tímpanos
Que sempre ficam a zunir naturalmente.
O cantar dos grilos
São idênticos aos das cigarras
Isso nos barulhos dos veículos
Nas ruas movimentadas.
Mesmo que eu escute
O cantar de um bem-te-vi
Todas as manhãs na minha intuição
Ou sobre uma antena de televisão
Ao lado do prédio que moro
Não consigo viver meu pretérito
Mas relembro o cantar de um deles
Na mangueira espada ou rosa
Ou mesmo ainda no pé de pitombeira
Atrás de minha casa
Minha terra natal, NATAL
Vivo naturalmente e sem interrupção
Meus momentos anteriores  de meu sítio
Só quando assim chega a noite;
As estrelas são as mesmas
E continuam no mesmo lugar
Pelo menos elas, eles não conseguiram mudar;
A lua com o seu mesmo encanto
Linda, sempre linda, linda, linda...
Levanto-me durante as noites
Para apreciar e sentir a emoção
Que sempre e sempre vou sentir.
A sua brisa cheia  e singela
Entra em meu quarto e me acorda
Convidando-me para acompanhar
Seus passos lentos e taciturnos
Com destino ao aconchego que é seu....
...............................................................
O que ouvirei  em meu vindouro?
Será que irei ouvir os pássaros?
Livres, libertos e tranquilos?
Ou só ouvirei loucos barulhos dos homens
Sons artificiais, máquinas de ferro
E outras coisas mais?
E onde que estão os meios naturais?.....




S. O. S.  MUNDO

É... nem bem cheguei e aqui sozinha estou
Vendo os homens não mais semearem amor
Desligados do mundo com suas mentes incertas
Destruindo animais, rios, campos, florestas
Com uma demência cega conhecida por ambição
Ferindo a minha vida sem medida do coração.

Ainda sou tão pequena conhecida por inocente
Como viver esse mundo para aprender ser gente?
Compartilhando de tudo que existe de errado?
Graças a Deus que ainda não sei o que é pecado
Sei que aqui represento o sinal de todo futuro
Porque  sou paz, amor e o fruto mais puro.

Chega de alerta, chega de cartaz
Chega de bandeira branca
Que o mundo não entende mais
Vamos erguer uma criança
Para ver se a humanidade
Entende a verdadeira paz
Vamos levá-la ao ápice  da terra
Para que o mundo afogado em guerra
Veja e sinta no azul desse infinito
O desespero de uma criança num grito
Chorando a paz a todo segundo
Pedindo aos homens S. O. S. MUNDO.




O GRITO

Estão vendo aquela área deserta
Bem ali existia uma floresta
Mas um bicho sem sede, sem fome
O tal que chamamos de homem
Com a sua inteligência destruiu
E o grito do silêncio ele não ouviu
Ao extinguir o seu próprio ser
O incrível é que ele ainda não vê
Que as alterações na terra e nos animais
São as extinções dos verdes matagais
Alucinado edifica no pensamento
Idéias erradas como fúria dos ventos
Como pessoa mergulhada na fraqueza
Tudo pela busca de riqueza.
Imagino quando seu tempo estiver acabando
E ele não mais estiver se lembrando
Dos erros que à natureza ofendeu
Erros dos quais sempre se elegeu
A sua consciência e o seu coração
Serão os autores daquela destruição.
Moribundo só vai conseguir entender
Ao ver seu próprio filho fenecer
Pela falta de oxigênio. O Paraíso
Na contrição quase perdendo o juízo
Não mais podendo controlar sua calma
Desesperado, preocupado com sua alma
Se lembra quando acabou com a fauna
E em seu interminável momento de loucura
Ele grita. MEU DEUS! MEU DEUS!!!
Será que os meus têm cura???    


BREVE CURRÍCULO

MAURÍCIO CARDOS GARCIA, potiguar nascido em 19 de junho de 1961. Poeta por  ausência. MENSÃO HONROSA e DESTAQUE em Concurso Nacional de Poesia em 1987; 3º lugar no CONCURSO DE POESIA JL (Jornal da Liberdade, SP), também em 87. Engajado na faculdade dos seres racionais desvenda paulatinamente o porquê de ser poeta.

Reedifico o pretérito
Nas máculas dos esquecimentos
Deixadas pelos dendroclastas
Na forma simples de redigir
No ensejo de minha verve.


MC GARCIA   

domingo, 25 de novembro de 2012

CARTA A UMA POETISA






Natal, 30 de junho de 2012.
Prezada poetisa,
T. L.

Banzoções!

Começo por negar qualquer possibilidade de me afirmar poeta, posto que a minha identidade possa realmente está nas palavras que profiro ou silencio, porque tu és poetisa e sei que não só entendes, mas sentes; haja vista, tu bebes na mesma fonte por teres como ofício o amor pelas palavras. Não há acaso quando todos os caminhos convergem para o mesmo ponto em nome da arte; assim como não há fronteiras quando a literatura serve-se de passaporte para transcender os mais longínquos lugares que só a arte pode indicar. Digo isto T. L., por a vez primeira, que te encontrei não eras tu docente, mas poetisa em meio um monte de jovens, diga-se de passagem, graduandos que se deleitavam das palavras como poetas livres a passarinhar de liberdade e de prazer num universo infindo de vivências, que me fez refletir os tempos idos da década de noventa, quando ainda na Universidade (UFRN), cursando Letras, sonhava por um ensejo como aquele do CON-VERSA com PROSA, na Casa da Ribeira; e, a forma pela qual foi conduzido o sarau poético me levou a fazer uma intervenção repentina, certamente, levado pela sedução do momento; percebi que havias tomado um comportamento digno de poeta nas ações, nas palavras desestruturantes da primeira ideia drummondiana (declamando o teu poema paródia de QUADRILHA); assim como no ato de servir água, ali, para os presentes, certamente numa atitude bem franciscana (cristã, nordestina, maranhense) ou como digo numa máxima que criei: AQUELE QUE QUER SERVIR; É PRECISO VIR A SER; e como tu mesma dizes é preciso que saiamos do pedestal para quebrar o distanciamento entre docente e discente para que este se sinta seguro com a nova realidade acadêmica ou qualquer outra.
Ante todo esse contexto não me atinei por nenhum instante sequer que tu, poetisa T. L., serias a ministrante da disciplina: POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, da Especialização que estava a fazer, quando certamente na profundidade latente do meu afã, tudo direcionava para essa realidade, e assim foi uma satisfação arrebatadora vê-la quebrando toda a lógica de mestra, docente ou professora, porque para mim e para muitos dos meus colegas, a todo o momento te fizeste poetisa marginal por te fazeres popular (junto a nós) e por ficares à margem da sala tradicional onde tudo começou (H4), ou seja, todos os encontros que tivemos contigo foram em salas diferentes e mais uma vez tu te mostras distinta nos apresentando uma forma poética de viver a vida, posto que literatura é vida, e a vida sem literatura é insossa, porém há quem viva uma vida sem sal, fazer o quê?  Portanto, não me foi nenhuma surpresa porque já te conhecia poeta em Drummond e agora em tantos outros que nos trouxeste à luz dos nossos saberes, mormente, os chamados poetas marginais, malditos, da década de setenta, estes que poeticamente foram beber nas fontes românticas e modernistas tendo suas identidades nas palavras, assim como diz, Oliveira Silveira no poema A PALAVRA NA PRAÇA: “A Palavra passei, toma sol, Lê jornal e engraxa os sapatos. Que sapatos?...” Como também Chacal que diz: “É proibido pisar na grama; o jeito é deitar e rolar”, Mário Quintana, Itamar Assunção, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto, Waly Salomão ou como o sociólogo Garcia Canclini que diz: “O popular é excluído”; porém, diante essa mesma exclusão já não existe mais tempo para revoluções, para marginalidade, para radicalismos extremos (costumo dizer que todo radicalismo é suicida, assim como foi a ditadura militar, o comunismo, e as vitórias do Flamengo), pois vivemos os tempos das incertezas, do pessimismo,  do paradoxo, da produção em série, da pirataria, dos descartáveis; o urbano virou rural e este, urbano; os shoppings viraram referência universal, pois está em Natal ou Nova Iorque não mais faz diferença alguma;  no século XX o gênero do texto entra em crise, a contemporaneidade, não define bem o estilo, não se nomeia; o mundo contemporâneo se dá de forma híbrida, sente-se saudade do agora porque tudo passa muito rápido, as coisas são muito mais virtuais do que reais, tem-se problemas imaginários, tais como síndrome do pânico, depressão,  estresse, onde o ter carro, celular, status, dinheiro vale mais do que ser honesto, justo, humilde; quando, ao invés de se Ter amor, sabedoria, humildade, se tem corrupção, insensatez e crueldade, e “assim caminha a humanidade”, e a sociologia não mais comporta a vida porque a Vida se justifica por ela mesma em nome da Literatura, da arte.
Amiga minha T. L., redijo-te estas linhas no intento de te dizer que assim como Platão foi antes poeta para que se fizesse filósofo e Nietzsche filósofo, sendo poeta; tu, assim como ambos, já nasceste poeta, por isso és uma excelente professora que encanta a todos nós com a tua forma desprendida de conduzir as tuas “aulas” num hibridismo (docente\poeta) interativamente gostoso de viver.
Poderia me alongar por demais nesta missiva, por ter sido um estilo de escrita que me levou a ser o que sou hoje, enquanto identidade no logos, quando residi em Sampa por dez anos, onde até então guardo comigo 500 delas (cartas), não como belas lembranças apenas, mas acima de tudo como signo de que a minha mutação é constante por força da palavra. Por isso, encerro esta por aqui lhe parabenizando pelos cinco belíssimos encontros que nos proporcionaste em POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA no curso de Especialização em Literatura Brasileira.

Abraços filopoéticos!

domingo, 11 de novembro de 2012

ANÁLISE DO POEMA: AUTOPSICOGRAFIA DE FERNANDO PESSOA


 El Pensamor


AUTOPSICOGRAFIA – Fernando Pessoa

*Maurício Cardoso Garcia

“Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.”

(Poema Isto – Fernando Pessoa) [1]

O FINGIMENTO COMO UMA NECESSIDADE INEXORÁVEL DO SER

Sabendo-se que o poema Autopsicografia do poeta português, Fernando Pessoa, trata-se de um de seus textos poéticos mais conhecidos, lidos e estudados, o qual, tem sido quase sempre objeto de pesquisa acadêmica, onde muitas vezes discentes sedentos estão a perscrutar sempre algo mais sobre o poema, ainda assim, não se descarta a possibilidade de se refutar sobre o mesmo para se buscar fazer novas leituras investigativas, isto é, uma análise interpretativa conforme quase toda obra sempre suscita.
Em particular, debruço-me também agora sobre o referido texto poético para buscar perceber algo mais do já que foi dito; Oxalá, que o esforço de minha ousada inteligência venha realmente desvendar o filão contido no texto, certamente, já desvendados entre tantos pesquisadores, em outrora, porém o meu intento é o inusitado que ainda se encontra latente na obra.

Com base nos textos de sala, na Disciplina: Teoria do Texto Poético, do Professor Antonio Medeiros, e na Gênese dos Heterônimos do próprio Fernando Pessoa, desprendidamente e sem me prender à fórmula pronta, deixo-me envolver pelo poema Autopsicografia pessoano, e assim, percebo o que o poema nas suas filigranas pode me oferecer de mais precioso e essencial; então, passo a discorrer sobre o que a própria intitulação (Autopsicografia) do poema sugere. Antes, porém, faço uma breve análise da estrutura do poema, em seguida, debruço-me para uma análise do poema buscando ver a representação descritiva da alma que o poeta faz sobre si mesmo, ou seja, do seu  ortônimo e  através dos seus heterônimos no que tange o fingimento e a descrição da sua alma que é o tema que envolve o texto poético. 

AUTOPSICOGRAFIA [2]

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve
Mas a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de cordas
Que se chama coração.

O poema acima, Autopsicografia, trata-se de uma redondilha maior, ou seja, em sete sílabas poéticas, heptassílabo. Vejamos alguns dados a mais sobre a redondilha:

“Redondilha é o nome dado, a partir do século XVI, aos versos de cinco ou sete sílabas - a chamada medida velha. Aos de cinco sílabas dá-se o nome de redondilha menor e aos de sete sílabas, de redondilha maior. A redondilha foi muito utilizada pelos poetas do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende e por Camões [3]

E segue esquema de rimas alternadas ou cruzadas, apresentando uma certa irregularidade nos versos 1º e 3º da última estrofe (ABAB); (ABAB); (ABAB) nas três redondilhas maiores (estrofes de quatro versos ou quarteto), num total de três estofes, somando 12 versos. A primeira redondilha que se caracteriza principalmente como um paradoxo e uma ironia em torno do fingimento do autor-poeta e poeta-autor, que se apresenta como uma espécie de metapoeta, ele infere na palavra FINGIDOR (substantivo) o próprio sentimento que será revelado logo em seguida; ou seja, se numa atitude lúdica de observador analítico nós separarmos o vocábulo FINGI – DOR, veremos claramente isso. Certamente, o poeta criador de ideias e de sentimentos de si mesmo, emanado de sua imaginação criativa, se entretém nesse jogo, quando no terceiro verso diz: ... FINGIR (que é) DOR, praticamente parece repetir o mesmo substantivo (fingidor) do primeiro verso de maneira intencional e brincalhona, já que nos parece que seja isso mesmo o seu intento percebido no decurso do poema. Onde foneticamente não se consegue discernir FINGI-DOR de FINGIR DOR, Percebem.

Autopsicografia, significa dizer auto - grego autós, -ê, -ó, eu mesmo, ele mesmo, mesmo; pref. Exprime a noção de próprio, de si próprio, por si próprio. psicografia s. f.1. História ou descrição da alma. Em síntese, podemos dizer que autopsicografia trata-se de uma pessoa, que aqui é o poeta Fernando Pessoa, por si próprio fazendo a descrição histórica da sua própria alma, como se estivesse a fotografar a sua essência mais profunda, como ele mesmo diz:
Médium, assim, de mim mesmo todavia subsisto. Sou, porém, me­nos real que os outros, menos coeso (?), menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos. [4]
Autopsicografia, pode-se dizer que é um poema que essencialmente reflete o real poético criativo da pessoa de Pessoa em várias pessoas, ou seja, a pluralidade de si em seus heterônimos, tais como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Chevalíer de Pas, entre outros. Um tipo de reflexo sem a realidade refletida dos espelhos, posto que estes, nem sempre revelam o real sentido da imagem, mas sempre uma imagem invertida do real e/ou muitas vezes distorcidas de essa realidade que se busca e tanto se quer, mas que se não é possível. No entanto, parece-nos que através de o recurso poético do Eu lírico pessoano, o poema Autopsicografia, retrata de maneira sutil o reflexo de o próprio ser do poeta de forma representativa mais que real, porque é sentido no âmago do poeta, ou seja, da pessoa de Fernando desde a sua tenra infância, quando ele, em carta a Adolfo Casais Monteiro trata sobre a gênese dos seus heterônimos:
Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construí­dos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos .por dentro das suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isola­da e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algu­mas figuras de meu sonho — um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pas — e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles - é uma das grandes sauda­des da minha vida. [5]

Isto é, como uma necessidade quase compulsiva ou histérica, como ele mesmo fala de representação constante, posto que o mundo que o cerca parece não lhe ser suficiente para dar as respostas que tanto buscava sentir.
Percebe-se no poema uma espécie do Eu de Si Mesmo que Pessoa sente-se no afã de nomear para que seu intento seja bem dito, pois que se não for nomeado pode se correr o risco de não ser bem representado ou se tornar mera repetição de tudo que já existe, o EU que pulsa para dizer algo mais do que o próprio EU da pessoa de Pessoa.
No verso “O poeta é um fingidor” à primeira vista, chega a soar mal, a ponto de se ver o poeta num nível de rejeição cruel; digamos, o poeta é elevado a uma espécie de mentiroso, de gente vã, medíocre, sem categoria nenhuma; ou melhor, à categoria na qual todo artista praticamente é levado, à de marginal. Porém, no desenrolar do poema a ideia vai se formando e tomando corpo onde o poeta fala de si mesmo (ou seja, Fernando Pessoa, poeta, fala do poeta como sendo uma espécie de metapoeta ou de metapoesia, que ele mesmo denomina de Autopsicografia).
No segundo verso, “Finge tão completamente”, é endossada ao extremo a afirmação do primeiro verso, ou melhor, ele não só finge como também confirma que finge por completo, sem medo e com determinação da própria necessidade de fingir.
No 3º verso, “Que chega a fingir que é dor”, ele diz do que realmente finge, porém fica implícito que o seu fingir não é só a dor, mas algo maior, pois que é na própria alma que sofre. Porque a dor, em parte, é o extremo do sofrimento de que o humano é capaz de sentir, entre tantas outras dores existenciais.
E por fim, no quarto verso, “A dor que deveras sente”, ele fecha o quarteto primeiro de forma irônica e paradoxal, como se fizesse cair a máscara do fingidor, quando revela que o seu fingimento é mais que real na dor, porque fingir realmente o que se sente na pele, na alma é como se fosse um tipo de brincadeira cruel, às vezes até infantil, masoquista ou senão, uma atitude para não incomodar os outros que certamente não irão solucionar o seu problema, ou seja, a dor que se sente, mormente quando muitas vezes trata-se de uma dor transcendental ou metafísica.
“Na vida, a grande questão é a dor que se causa, e nem a metafísica mais engenhosa pode justificar o homem que dilacerou o coração que o amava” [6]
Pode-se perceber que Fernando Pessoa quando diz que, “O poeta é um fingidor”, o faz com profunda consciência de concepção da realidade humana nele mesmo e em seus heterônimos, onde ele, enquanto Poeta remete ao poeta como uma metáfora da própria humanidade diante a sua realidade de indivíduo no mundo e ao mesmo tempo refere-se a si mesmo, Fernando Pessoa, ante os seus heterônimos como uma humanidade particular, os quais são representação das suas necessidades múltiplas de criador como poeta-pensador das suas ideias e dos personagens reais e não fictícios como os dos romances; Pessoa consegue transcender a realidade fictícia dos seus heterônimos, transformando-os em si mesmo e em personagens da vida real. Veja o que ele diz sobre isso:
Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvol­veu-se na adolescência, radicou-se com o crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural do meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha. (Genêse dos heterônimos) [7]

Entre a intitulação: Autopsicografia do poema pessoano e a sua realidade heteronômica têm-se uma forte relação representativa dos Eus de Fernando Pessoa, que nos parece ser grande parte das necessidades humanas que são expressivamente reveladas através do ato inexorável de fingir; fingir como uma prática intrínseca e coerente a todos nós ante as diversidades que a própria vida se expõe, e não só a de poeta, que no poema manifesta-se como uma metáfora da própria realidade humana. A ponto de se poder inferir, na primeira estrofe, a figura explícita do próprio poeta Fernando Pessoa; isto é, enquanto poeta nomeado como Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, como sendo seus eus implícitos; Na segunda estrofe, percebe-se o afastamento do poeta Fernando Pessoa e a presença explícita dos seus heterônimos, mas também podemos inferir a figura dos próprios leitores; no entanto, o poema é bem claro quando diz: “Os que lêem o que escreve / Na dor lida sentem bem”, ou seja, o poeta enquanto leitor introspectivo e narcisista sentindo-se a si mesmo através da leitura propriamente dita do que escreveu ou escreve, pois é como se fosse um tipo de purgação da alma, fuga da realidade, quando se ler o que se escreve, principalmente  quando se escreve para si mesmo ou para seus próprios eus, a ponto de não atingir a ninguém mais, a não ser a sua humanidade particular.  Seriam seus heterônimos lendo o que Pessoa escreveu, porém eles não sentem porque são meros personagens criados pelo sentidor que é Pessoa. São eles, os heterônimos, representantes da dor propriamente do poeta e humano Fernando Pessoa. Quanto aos leitores, estes nem sempre escrevem, apenas se sentem, muitas vezes, inseridos no contexto do poeta como se eles os tivessem escrito aquilo que tanto dilacerava a sua alma, por isso, na dor lida sentem bem.  E ainda na leitura de si mesmo, vejam um fragmento do poema, Não sei quantas almas tenho, do próprio Fernando:
Por isso, alheio, vou lendo
como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
o que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu. [8] 

Na 3ª e última estrofe parece-nos sugerir o heterônimo Álvaro de Campos do Eu pessoano quando diz “E assim nas calhas de roda / Gira, a entreter a razão, / Esse comboio de cordas / Que se chama coração” e, sendo este, Álvaro de Campos, engenheiro naval que exalta as máquinas, a velocidade da modernidade, parece brincar com o sentimento e o racional comparando o coração e a razão a uma máquina numa visão bastante lúdica, isto só possível muitas vezes através do recurso artístico-poético.
Em síntese, podemos dizer que o ortônimo, Fernando Pessoa, com os seus heterônimos, implicitamente, no poema Autopsicografia, através da ironia e do paradoxo presente na primeira estrofe, quando diz (A dor que deveras sente) em oposição ao (O poeta é um fingidor); da atenuação do sofrimento na 2ª estrofe (Na dor lida sentem bem); e, na terceira e última estrofe, (Gira, a entreter a razão) quando brinca com seu jogo intelectual com a criação poética de poeta-pensador; percebemos que, só mesmo através das palavras e da imaginação criativa se pode brincar até mesmo com a dor da própria alma, metafisicamente poetando, em nome da arte-poética.

*Aluno do Curso de Especialização em Literatura Brasileira – UFRN



REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO,  A poética clássica. Tradução direta do grego e do Latim por Jaime Bruma; introdução por Roberto de Oliveira Brandão. 6ed. São Paulo: Cultrix, 1995.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “A Bolsa e a Vida”. In: Obras Completas: poesia e prosa. RJ: Nova Aguilar. 1988, p. 1583-5
ASSIS, Machado de. Quincas Borba [1899]. São Paulo: Ática, 1992, p-13 e 214.
CÂNDIDO, Antônio. “O direito à literatura” in: Vários escritos. 4ª edição, reorganizada pelo autor, São Paulo; Rio de Janeiro: Duas Cidades: Ouro sobre Azul, 2004, p. 169- 191.
____, “Comentário e interpretação literária” In: O estudo analítico do poema. 5 ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006m p. 27-36.
CARVALHO, José Cândido. Os mágicos municipais (contados, astuciados, sucedidos e acontecidos do Povinho do Brasil), Rio de Janeiro: José Olympio, 1984 p. 44-5.
DUCROT,  Oswald.  TODOROT, Tzevetan. Gêneros literários. In: Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem. 2 ed. São Paulo: Perspectiva,1988, p. 147-151.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia, saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 199.
NASSAR, Raduan. Menina a caminho e outros textos. 2ª ed. São Paulo: Companhia de Letras, 1997, p. 69-73.
PAES, José Paulo. “Por uma literatura de entretenimento (ou o mordomo não é o único culpado)” In: A aventura literária. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.  25-38.
PESSOA,  Fernando. “Nota preliminar”. In: Obra poética. 7 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p. 69.
TODOROT, Tzevetan. “Os dois princípios da narrativa”. In: Os gêneros do discurso. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p. 61-84 (ensino superior).
____, “Em torno da poesia”.  Os gêneros do discurso. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p. 95-25 (ensino superior).
ZÉ, Tom; MEDEIROS, Elton. “Tô”. faixa 4 do lp Estudando o samba, Continental, 1976; ed. remasterizada, Continental, 2000.

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

http://forum.angolaxyami.com/poesia-portuguesa/12297-fernando-pessoa-isto-poesia-seria-e-profunda.html
http://www.releituras.com/fpessoa_psicografia.asp
TODOROT, Tzevetan. “Os dois princípios da narrativa”. In: Os gêneros do discurso. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p. 61-84 (ensino superior).
(http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=704



[1] http://forum.angolaxyami.com/poesia-portuguesa/12297-fernando-pessoa-isto-poesia-seria-e-profunda.html

[2] http://www.releituras.com/fpessoa_psicografia.asp
[6] Texto de sala: Os dois princípios da narrativa p. 73