ESTATÍSTICA DIÁRIA

ADMIRADORES DAS IDEIAS

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

ENSAIO FILOSÓFICO

COMEÇO E FIM DE SÉCULO E DE MILÊNIO


 * M. C. Garcia

Antes de começar a redigir essa idéia, custou-me a perda de alguns preciosíssimos neurônios – eis o que acontece com quem busca exercitar o pensamento, com ou por qualquer coisa que lhe perturbe a cachola, por mais simples que seja. O motivo era arrumar um título. Decidi por este que verem acima. Pensava, agora, no estilo. Se escreveria em forma de crônica, prosa, ou de um grande poema de fim de século como assim o escreveram e fizeram os modernistas de outrora, ainda no despertar dos -ismos e da Belle Epoque.  Mas, quem sou eu para realizar tal façanha? Um pobre coitado, que no universo da escrita, das letras, estarei e viverei sempre a engatinhar, porque sinto que jamais irei sair da primeira parte do desvendamento do enigma da esfinge. Serei eu, isso sim, apenas ousado em buscar expressar o mínimo de sentimento que me resta de quando em quando nesse meu peito senil e nessa mente ansiosa por tudo. Por que em tudo que sinto, procuro fazer apenas uma reflexão? Isto é, das grandes coisas ou dos temas que estão em voga, sobre os quais, só intelectuais  renomados - só eles - assim conseguem ousar e fazer sucesso. Isto, dado pelo honrado prestígio de ter sido laureado com o prêmio Nobel, ou, por ter milhões de livros publicados  em vários idiomas pelo mundo inteiro. Mormente, num momento privilegiadíssimo como este, no qual, estamos vivendo intensamente que é o começo de um novo ano. Há algo mais relevante, mais transcendental - diria até, mais exuberante –, que a transposição de um novo século e, coincidentemente, de um novo milênio? Sinceramente, não há.

Pois bem, como verem, acredito que a minha opção vai enveredar mesmo pela linha do ensaio, visto que, este me parece ser mais conveniente, o qual me permite não adentrar quão profundamente nas coisas, ou seja, ficando apenas na superficialidade. Eis que esta forma, no meu ver, é a mais prática de se poder expressar uma idéia. Isto é, para não ter o comprometimento de querer fazer uma coisa acabada, como um fim abruptamente definido. Ou de algo que se sirva de parâmetro ou referencial de alguma verdade. Não. Não é nada disso. A intenção é de que algo sempre vai estar em movimento constante e aberto para completude daquilo que hoje ainda não consigo visualizar com tanta nitidez. Deixarei tudo isso, talvez, assim como se procede com a literatura, com o cinema, com a pintura, a arte em geral, isto é, desde que tenha o real sentido de abertura para o pensar ou o criar, assim não sendo, não se caracteriza o sentido da minha intenção aqui. Portanto, quer queira quer não, o intuito desse ensaio é tentar enveredar, com sutileza, no universo do pensar filosófico.

O interessante seria discorrer da ilusão sobre a qual todo mortal vive indubitavelmente revestido consciente e inconscientemente desde muito e muitos séculos.  Ou, melhor dizendo, desde vinte séculos atrás. E desde que fora convencionado por calendário (gregoriano, grego, israelita) os dias, meses e ano.  Quão fantástico é o poder que a ilusão tem sobre as pessoas, pois estas são envolvidas independentemente do grau intelectual ou cultural. O ser inteligente cria a sua ilusão. E, vive e sobrevive dela como se ele próprio fosse parte ou todo dessa ilusão. Mera ilusão! Ninguém pode se iludir de si próprio, nem a si, porque iludir-se de si ou a si, é fazer com que o objeto (utópico) criado, supere o sujeito que é o criador. Jamais se pode perder o domínio da sua criação que é o próprio objeto (noutras circunstâncias chamaríamos de criatura e num vindouro breve chamaremos de clone).  Vivemos inconscientemente envolvidos até a alma por objetos mil. Alguns, criados pela nossa imaginação – por nós mesmos – outros, criados por outrem. Porém, estes são onde mora o verdadeiro perigo. Porque não os conhecemos com propriedade, nem tampouco, a sua essência.  Nos objetos dos outros está sempre inserido o dedo de seu criador, a sua opinião, a sua experiência, a sua fatal intenção. E o pior, a personalidade de indivíduo – o criador do objeto. Tudo isso, é parte também da técnica, do estilo. Sabe-se que não é fácil de conhecer-se personalidade de ninguém. Porém, há de se apreender a técnica e o estilo de quem quer que seja o indivíduo ou qualquer que seja o objeto deste ou de outrem. Tudo isso, para que não sejamos dominados ou transformados, também, em objeto de uso dos outros. E, inexoravelmente também, da ilusão nossa ou deles. Não somos máquinas, robôs e muito menos títeres que têm seus cérebros nos outros.

Entenda-se ilusão, aqui, como sendo toda e qualquer forma de idéia criada ou utopilizada pela mente humana até hoje, como forma de alienação, mormente, àquela a quem tem vivido intensamente sem um átimo de questionamento, sem a mínima reflexão sobre tudo que já aconteceu desde os primórdios da humanidade ou, como vem, principalmente, acontecendo até nos dias atuais. Assim como, sempre foi desde o primeiro pensante a idealizar algo e a criar assim a sua teoria, hipótese, tese,  dissertação, monografia; e  a colocou como padrão universal para transgredir o que havia – ou será que ainda há mesmo, nesse mundo da globalização? – de mais sagrado, puro e essencial num povo ou nação: a sua Cultura. E por fim, deu-se, erroneamente, numa concretude sutilmente abstrata do mundo utópico, ilusório, fictício e virtual do qual somos todos vítimas incondicionais. Mas que antes era de total domínio do indivíduo.

     A ciência teorizou as idéias e as pragmatizou aos extremos; já a religião as dogmatizou alienantemente. Mas, a poesia e a filosofia deram o sentido real da idealização propriamente dita da idéia. A política, porém, foi quem pegou tudo e as deturpou e colocou dentro de um mesmo saco e teorizou, dogmatizou, idealizou. E mundos que antes eram distintos, passaram a ser colocados a prova de ferro e fogo, abstratamente. E, assim, uma verdadeira miscelânea de coisas nos foi posta e imposta, graças à ciência, à religião e à política. A poesia, esta que, contudo, antecede à filosofia, seja talvez a única forma de se ter domínio sobre a ilusão da qual discorro nessas linhas.  É a poesia o instrumento que serve para manipular a ilusão de si e dos outros. É um veículo pelo qual nos faz viajar no universo infindo da ilusão sem nos deixar iludido ou fazer-nos objeto dela. A poesia nos faz mergulhar nesse mundo e ao mesmo tempo nos faz voltar ileso desse mesmo mundo. Voltamos com sã consciência para questionar e refutar sobre as coisas que a própria ilusão proporciona. É aqui, então, que se entra com o exercício do pensar, propriamente, como o faz o poeta. É talvez e, certamente, o princípio do poema da ilusão no qual iremos encontrar o verdadeiro sentido do filosofar.

Refutemos, pois, quanto ao tão alardeado, ao tão exaltado e, por que não dizer, ao tão esperado momento festejado nos quatro cantos do mundo. Mundo este, que se diga verdadeiramente, ocidental apenas.

Eis, então, que é chegado o dia 31 de Dezembro de 1999. A fantástica e contagiante festa de passagem do milênio. Bem como, também, a virada de um novo século. E, por que não insisti em dizer, uma passagem de ano comum como todas as outras desde há vinte séculos. Porém, não podemos negar jamais, o que há de extraordinário, de belo e de fantástico nessa passagem. É, inegavelmente, a tríade de festividade que se vive nesse momento ao mesmo tempo. Não bastasse a festa que se comemora a cada completar de 365 dias. Comemora-se o apogético  festival do milênio e do século. Uma festividade que irá marcar profundamente a vida de muita gente. Isto é, pelo menos, para alguns ocidentais. Sabe-se, porém, que muitos judeus, muitos orientais vivem o além do além dos nossos minguados dois mil anos e nem sequer dão conta dessa realidade, pois que, é puramente ocidental. A prova disto é que, aqui mesmo no próprio ocidente, como uma grande ironia, muitos judeus aguardam fervorosamente a vinda de Cristo. Os orientais vivem através da sua própria tradição a milenaridade de que o nosso ocidente carece. E que, nós ocidentais, muitas vezes, temos que beber nessa fonte para compreender o verdadeiro sentido de cultura, acima de tudo, milenar. Bem como do próprio conceito de ciência que nos legou Marcos Polo com as suas viagens pelo continente asiático.
Outrossim, nós mortais do ocidente, nos perturbamos à toa, quando nos enchemos de expectativas, de ansiedades aperreantes por um momento, puramente fictício, igualmente a qualquer um outro. Sem mais nem menos festividades. Ou, com mais ou pouquíssimas festividades triviais realizadas nos quatro cantos do mundo ocidental. Que, se trocássemos, o “o” por “a” do logos ocidente, justificaria literalmente toda a ilusão e o lapso que muitos estudiosos "acidentalmente" insistem em priorizar apenas uma face da moeda, como se o fato histórico se tratasse apenas de uma criação fictícia como uma eterna epopéia, quando na verdade, Homero, nunca se passou por historiador como assim muitos o querem que ele seja com a sua Ilíada ou Odisséia, mormente como são os modernos tecnicistas ocidentais. E a palavra literalmente modificada – de ocidente para acidente – nos daria o sentido absoluto de todo esse comportamento medíocre e não mais viveríamos tomados dessa ilusão.  Desse grande erro histórico? Ou imposição histórica?

    Todavia, há uma necessidade extrema de se viver sempre da abstração. Porém, com certeza, só os poetas e os filósofos conseguem apreender e conviver harmoniosamente com essa abstração. Isto é, sem serem tomados como mero uso da abstração ou da ilusão. O que não se pode, nem se deve é viver eternamente iludido de que a passagem dessa tríade festiva venha a dá alento real ou mesmo que seja fictícia a toda uma humanidade sofrida; tomada pela fome, pela guerra, pela miséria. Acredita-se numa mudança – estes são os otimistas – diga-se de passagem, uma minoria que já anda se fartando de tanto otimismo. Porque sempre se fizeram otimistas acreditando nos outros. E, em si, dando-lhes o voto de confiança. Mas a humanidade foi traída e injetou em seu otimismo uma boa pitada de pessimismo. O mundo se cansou do otimismo de acreditar nos outros e passou a ser mais "otimista em si mesmo". No ato da sua ação.  Lutando com perseverança a favor ou contra aquilo que só o seu trabalho pode lhe proporcionar o verdadeiro sentido. Ou seja, passou a valorizar o que foi produzido ou criado pelas suas próprias mãos. Tirado do seu próprio suor – o seu sustento. Sem mais atribuir à interferência de um “atravessador bonzinho”, sempre a querer indicar qual o melhor caminho em sua vida particular ou para os seus negócios principalmente. Agindo assim, passou a resgatar o seu valor como criador e detentor da sua obra, do seu ofício mais real. Justamente como fazem os poetas e os filósofos. O escritor, José Saramago, português, laureado com o Nobel em literatura, se afirma em ser o único dos últimos pessimistas nos dias atuais, certamente ele esteja com razão. Pois que, sendo um "otimista em si mesmo" inexoravelmente, se torna um pessimista com relação à coletividade. É o que nós precisamos ser: pessimistas coletivos.

Mas o mundo, infelizmente, não é feito só de poeta e de filósofo. Mas de povo sofrido. Aí, sim. Esta é maioria da humanidade. É esta maioria que acredita em mudança realmente. Isto é, até enquanto, no auge da festividade são acionadas todas as sirenes de fábricas. Buzinas e mais buzinas de carros, trens e navios a soarem em ruas, avenidas, portos das grandes e pequenas cidades. Até enquanto estão sendo explodidas as toneladas e mais toneladas de fogos de artifícios. Numa grande festividade semi-mundial que vai do Rio de Janeiro a Paris e desta a Nova Iorque. E, exatamente, quando na contagem regressiva, dos segundos: 11h59s01,02,03..... 59; 00h00m00s. Aí, dar-se a grande explosão!!! E em cheio atingem os corações das pessoas. Todas, a saltitarem de felicidade. Um sorriso e muitos abraços. Muitos e muitos, "Feliz ano novo!" "Feliz novo milênio!" "Feliz novo século". Uma grande festa para os mais afortunados, diga-se de passagem, uma insignificante minoria, que partilha em menos de um terço deste grande planeta. Mas, tudo isso, só vem a caracterizar mesmo o grande sinal de eterno paradoxo. Alguns miseráveis deste outro lado do planeta - que é o ocidente - não compreendem bem o sentido dessa barulheira infernal. São mendigos nas ruas, enfermos nas camas de hospitais, senis em abrigos; dementes em manicômios.

Um mentecapto, num momento de reflexão, recobra a sua consciência e vai à sua reminiscência e, em sua memória perdida, lembra-se com nitidez - essa lembrança é muito comum nos loucos - de que a festividade lá fora se refere à passagem de ano; é ano novo; é a passagem do ano 1999 para 2000. Todavia, sendo ele, louco varrido, como assim o diz, faz a seguinte reflexão: "Sei que a minha loucura justifica o minguado espaço, no qual me encontro; porém, ser louco é um rótulo imposto pelo poder da maioria dominante que mais contribui para que se seja alienado no grupo, que é o mesmo que a loucura grupal; em que se pode ser louco como coletividade alienada e não louco pela individualidade, este louco é uma ameaça à loucura coletiva que ruma às mais absurdas das ilusões impostas pelo capital, pela mídia, pela sociedade de consumo e por, acima de tudo, esta ilusão, esta descabida mentira colocada pelo mundo ocidental de que a passagem de ano que estamos vivendo seja a passagem de um novo milênio ou de um novo século. Balela! pura bazófia! Visto que, tudo isso, só se justifica mesmo, com os loucos da sociedade de consumo, em nome de outro louco com um poder centralizador denominado de capitalismo, que só ele tem poder de antecipar a passagem de milênio e de século em um ano antes, ou melhor, dizendo, só para comemorar e bebemorar, literalmente, por duas vezes. E viva os loucos de lá!! E vivam os loucos daqui!! É passagem de ano novo, comum como todos os outros anos de outrora. Viva o ano 2000, e feliz ano novo!

Só um. Um único louco aguarda ainda a passagem do milênio, do século em 2001. Sou eu. Só por que não vivo a ilusão alienante do capitalismo, mas por viver a loucura da minha utopia, assim como, o filósofo vive da sua filosofia e o poeta, da sua poesia.

Dez de 2000.

* M. C. Garcia é poeta e filósofo

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

LITERATURA DE CORDEL

 

COMO DIZ O VELHO DEITADO II

 
(velhos provérbios novos) 
Chega a idade do Bobo
O cabra se ver na peinha...
Sente o cheiro de mulher
E acha que é uma ovelhinha
Está na idade do Lobo,
Só conquista ó velhinha!

Eis o homem dos quarenta,
Vive a morrer de fome;
É só vê rabo-de-saia,
Logo, seu juízo some.
Ele diz que faz e acontece...
Mas é Lobo que não come...

Veja homem convencido
Se acha sempre gostoso
Quer pegar todo mundo
É sacana bem vaidoso
E diz: a carne é frágil,
O coração cauteloso! 

Todo cuidado é pouco,
Podemos ser enganados!
Chega, então, a velhice
Pensamos: somos sarados!
Por fim, panela velha,
Precisa de cuidados!

Para quem viveu a vida
E teve paz do remanso
Lutou o tempo inteiro
Igualmente, asno manso
Digo: pra cavalo velho
O remédio: bom descanso.


Muito chefe, pouco índio
Porém, grande sossego
Entre mando e desmando
Todos labutam com apego.
Por fim, manda quem pode,
Quem cumpre tem o emprego.

Há quem tanto trabalhe
Que chega a virar vício
Digo, pois, não confunda
O seu ser com o seu ofício
Que ao invés dos ossos
São os ócios do hospício.

Pois, relógio que atrasa
Jamais pode ser inglês
Falando de últimas horas
Meu povo não é freguês.
Então, assim sendo, se...
...Eu tardo, sou brasilês.

Voz de povo é de Deus
Aqui, ali, em toda nação
E disse bem o filósofo:
- Religião, ópio do “povão”.
Digo, por fim, que sua voz
É, também, da alienação.


A ONU exige do meu Brasil:
A Educação é confete
Ninguém lê, nada estuda
Cola-se feito chiclete.
Se não escreveu, não leu
Retirou da internet
.

Há metáfora no mundo
Que deleita o esteta,
Utlizam-na sabiamente
O artista, o profeta,
Porém, coração é terra
Que vive e anda poeta.

Desde longínquo tempo
O mundo é perdição
E uma profissão antiga
Chama-se prostituição.
Pois, de papo em papo,
A galinha cai na mão.

Estamos na Nova Era
Eis um grandioso mister:
Famílias esfaceladas:
Brigam marido, mulher,
(Um caos, uma confusão)
Filho, vê o que não quer.

O menino bem sapeca
Deu à imaginação asa.
E era dia de São João,
Saiu de dentro de casa.
Fogueira sem fogo, viu...
...Onde há cinza, há brasa.

Veja, aqui, quanta falácia
Em que seres deram nome:
“Se correr o bicho pega,
Se ficar o bicho come”
Então, passo a andar,
Por fim, o bicho some.

Eis, o tempo da Graça
Onde muito já mudou
Transplante de coração
O mundo assim realizou,
Em terra que só tem cego,
A medicina não chegou.


No mundo capitalista
Só há desvalor do ser
Prioriza-se material
Em nome do sempre ter
E o lema consumista:
Ter mil coisas sem poder.

No estado que se vive
Logo pode ser roubado
Rara a honestidade
Se tá a ser enganado.
Ainda que não olhe dente,
Cavalo dado, cuidado!

Oh, que gente bem cruel
Repleta de corrupção !
Quão difícil ser honesta,
Ladrão que rouba ladrão
Dou-lhe um novo provérbio:
A ambos (cem anos) prisão.

Eis quem no que vê atira
Deve ser assassino;
Quem mata o que não vê
(Não deve ser menino)
Tem que ir para cadeia
Este será seu destino.

Há muita fome no mundo;
Povo que falta de tudo.
E aonde iremos chegar?
Então, afirmo, contudo,
Aquele que não come mel
Quando come é sortudo !

Lá pras bandas do Sertão
O cabra morre de sede,
A criança sem comer,
Tira barro da parede,
Ao crescer humildemente:
Sua educação vem da rede.

Há campanha e campanha
De ajudar o teu irmão
Emissão pela internet,
Meios de divulgação.
Se conselho fosse bom
Assim não existiria ação.

Se somos semelhantes,
Eis uma bela conclusão.
Porém, têm narcisistas
Expondo musculação:
Conhece-te a ti mesmo,
Porém teu próximo, não?!

Há muito que se fazer
Ainda assim, tu demoras
Não leve sua vida como
Sendo lendas e caiporas.
Que podes fazer num dia:
Só há vinte e quatro horas.

Enquanto todos corriam
Ela usava a sua razão
Numa paciência de Jó
Quanta determinação !
Aí,vi que a pressa é
Inimiga da Conceição.

Hoje e sempre na vida
Teremos que ter zelo
Mormente às coisas boas
Faremos qualquer apelo.
Não me diga com quem andas,
Apresente-me para vê-lo!

Para que desesperar-se
Com o dia do aniversário
A vida segue seu rumo
Independe de calvário.
Pois o que é bom demora,
Só o tempo necessário.

Se você se comunica
Terá tudo que bem quer
Estará ciente de tudo
Que fizer ou não fizer
E, aquele que tem boca
Vai para aonde quiser.

Há certas coisas na vida
Que não se pode fugir
Mormente as inventadas
No intento de ferir...
Então, quem canta, seu mal
Está sempre a existir...

Viver de felicidade
Não faz mal pra seu ninguém;
Falar, cantar e sorrir
Pode levar-lhe pro além...
Chorar é parte da vida
Pois, sorria que faz bem !

Todos nós devemos ser
Da vida eterno amante
Usando-a com sapiência
Toda hora e instante:
E enquanto existir vida,
Haverá luta constante. 

EIS O MEU ANIVERSÁRIO


Dezembro é mês de festa
Compra-se muito presente
Muita comida e bebida
Alimenta muita gente
Porém, o menino Deus
Ali, se faz tão ausente.

Como vocês todos sabem
Chega Meu Aniversário
Sempre festas e mais festas
Extrapolam o necessário
Rádio e televisão
Dominam noticiário.

Uma vez por ano Eu sei
O povo pensa em Mim.
Há muito tempo atrás
Celebrava-se enfim
Na terra, Meu Nascimento.
Hoje, não é mais assim...

Ninguém sabe o porquê
De tal comemoração
Come-se, bebe-se tudo
Mas um vazio então
A invadir as pessoas
Repletas de solidão!

Todos estavam brindando
Alguns já embriagados
Vem um Velho Gordo com
Saco e casaco encarnados
Chamado: Papai Noel
Ficam, por fim, encantados!

Deixou-se cair pesado
Sobre enorme cadeira
Como se fosse seu dia
Numa grande brincadeira:
Ho! Ho! Ho! Ho! A gritar
E numa só barulheira!

Quando chegou meia-noite
Gente a se abraçar
Dei os Meus Braços também
Mas ninguém a Me Notar.
Entregaram os presentes,
Mas eu fiquei sem ganhar.

O que você sentiria
Se na festa de seu dia
Todos ganhassem presentes
Findaria a alegria
Se não recebesse o seu
Seria grande ironia.

Só quero que acredite
De todo o seu coração.
Vou Dizer-lhe uma coisa:
- Há muita festa e Eu não
Estou sendo Convidado!
Pois Farei a Minha Então.

É Convite Especial
Com o lugar reservado
Basta a Confirmação
Para que seja Listado
Com o "Não" fica de fora
Reflita ao Meu Chamado!

Como és Especial
Os Teus Amigos o São
Faremos a Nossa Festa
E Convidados Serão
Muitos, Poucos Escolhidos
Porque não aceitarão.

Parabéns, para o menino
De Deus, o Senhor JESUS!
O Qual, Salvou Todos Nós
Crucificado na CRUZ!
Hoje é Seu Aniversário
Nosso Presente de LUZ.

Parabéns, para Jesus
Que é o Nosso Salvador!
Que Deu à humanidade
O Seu mais Divino Amor!
Parabéns, para o menino
De Deus, o Nosso Senhor!

REFLEXÕES FILOSÓFICAS

 O MUNDO: UMA GRANDE MENTÍFORA
*MC Garcia

O mundo se sustenta fragilmente por uma grande mentira criada pelo homem. Este, não se conhecendo a si mesmo passou a imaginar um monte de coisas para justificar o seu medo daquilo que não sabia o que era, como era ou de onde vinha. E então, nunca mais parou de contar coisas extraordinárias, grande parte, vindas da sua própria imaginação. E, assim, ele descobriu uma grande verdade, que as suas mentiras lhes davam poderes. E muitas dessas coisas, simples de se saber e de se conhecer por qualquer pessoa, foram deturpadas ou inventadas e passaram a ser vistas como falsamente verdadeiras porque poucos homens se esforçaram em questionar sobre o teor da veracidade e assim outros homens se tornaram mais e mais acomodados conduzidos por dois grandes males chamados de preguiça mental e de ambição brutal, posto que, pensar a verdade não é para todo mundo principalmente para os ambiciosos, mas para aqueles que pensam a verdade e a praticam, a prori, serão taxados de loucos porque só os loucos é que fogem do convencional estabelecido e seguem outro paradigma e vão na contra-mão da realidade alienada. Se o homem justo começa a falar de um Reino desconhecido e da vinda do Salvador é louco; se o homem indaga sobre tudo e sobre todos e sobre si mesmo é louco; se o homem escreve coisas belas enaltecendo a natureza, a alma, a vida, o amor é louco. Porém, se o homem mente, rouba, mata, não é louco, é apenas político. Então, serão os loucos que estão com a verdade e os ditos normais e intelectuais com a mentira? E os que acreditam na grande mentira vão endossando a sustentação deste mundo, inocentes de que estão breves a cair em desgraça qualmente as tragédias de outrora. E, parodiando certo filósofo, eu afirmo que o mundo se sustenta, debilmente, sobre uma grande mentífora.

*MC Garcia é poeta e filósofo

 

 

REFLEXÃO À VIDA



Somos, por natureza, seres dotados de otimismo. Por isso, a vida se justifica pela constância do presente, onde a sua efemeridade revela-se em intermináveis pretéritos de presentes-futuros contabilizados pelo movimento perene da terra em torno do astro-rei.

O que é a vida senão a esperança taciturna e despreocupada de viver a cada grã momento o movimento eterno de tudo e em tudo que há vida; assim como na semente que germina, na manhã que culmina irradiante e no amor que aflora no genuíno coração de menina; e que, acima de tudo, se revela como um mistério Divino, não só nas coisas grandiosas, mas também, nas coisas pequeninas...

A vida é um jogo, onde cuja adversária é a morte, a qual só existe em função da própria vida; a vida não pode doar-se gratuitamente à morte, e, nem tampouco, a morte quer a vida de graça. Pois tudo tem um preço a ser pago, mormente, quando se entra no inexorável jogo do nascer. Portanto, o objetivo da vida é que se viva intensamente o aqui e o agora em detrimento de um futuro-mais-que-perfeito. Enquanto, o objetivo da morte é que se morra, o quanto mais rápido, melhor.

A morte ronda 24 horas a vida, à espera de uma oportunidade fatal; às vezes, ela se reveste de formas diversas, possíveis e impossíveis (o seu jogo); é comum, muitas vezes, ela aparecer revestida de Religião (uma forma inteligente e prática de pegar e levar muitas vidas facilmente); outras vezes, ela surge como vício (se diz até que toda vida tem um vício), quando, na verdade, vício algum justifica à vida; mas, apenas, ao vital interesse da própria morte. Contudo, o único, o exclusivo, o absoluto de todos os vícios cabe à extraordinária exceção da sapiência do vício de viver. Isto é, o vício de viver intensamente bem, a vida. Eis, então, o vício único, exclusivo, absoluto que incomoda a morte completamente e que a deixa revoltadíssima; por isso, como vingança, ela se reveste dos mais vis e nocivos vícios, os quais, muitas das vidas os tem como prazer ou deleite do bem viver. Vícios pelos quais muitas das vidas são destaques, porém, são vícios que só dão ênfase à “vida” e mais vidas à morte. Destes vícios viveram, intensamente, os Românticos; destes vícios vivem, intensamente, artistas ou não-artistas que fumam, que bebem, que se drogam; destes vícios vivem, intensamente, os homens de posição social, de status, de poder, cuja ambição é a sedenta fome pelo vil metal - o capital. A morte não gosta da morte cedida, gratuitamente, pela “vida” (como levam a crer alguns suicidas ou covardes). Tal comportamento é subestimar o poder da morte ou da sua inteligência de eterna perscrutadora, infalível, de vidas.

A quem interessa o fim de um covarde à vida? Se nem a vida nem a morte o querem nem mesmo por piedade? A quem, afinal, interessa o covarde fim de um suicida?... O poder da vida é ludibriar a morte e esta, à vida; como num verdadeiro jogo interminável entre ambas. A vida só vence a morte vivendo intensamente até a última gota, o último suspiro de vida com extrema senilidade, porque só a velhice extrema e sadia faz da morte uma derrotada; à morte, não interessa anciãos experientes e sábios; interessa-lhe jovens sadios, fortes e inteligentes. Uma vida intensamente vivida é de elevadíssimo grau de existência que, para a morte, é a eternização do seu inexorável sofrimento, e do seu iminente fracasso no jogo contra a vida. Por isso, vivamos intensamente a vida até o último instante da extrema senilidade sadia; pois que, à morte, não lhe interessa um exército de senis felizes e moribundos a rirem desgraçadamente da sua cara (cara da morte) de perdedora!!!

Eis que, assim, velho ou muito velho não morre, simplesmente, retorna ileso para o lugar de onde veio (sonho, nada, tudo, éden, infinito, céu, eternidade...), porque cumpriu dignamente o seu papel (o de viver) na terra. Ou seja, viveu intensamente até o último suspiro que lhe fora merecido.

*MC GARCIA - Poeta e Filósofo

A MENTIRA VERDADEIRAMENTE MENTIROSA COMO VERDADE


Debruço-me a refutar sobre a verdade do homem, refletida em mim mesmo, enquanto ser vivente neste mundo. Certamente, um pouco da minha verdade foi herdada da verdade que meu pai praticou enquanto convenção, porque precisei crescer alicerçada pela sua verdade para me fazer homem único e exclusivo de mim mesmo. E assim, desvendar a minha própria verdade de ser e não de estar como homem propriamente. Digo, a verdade de ser, porque a verdade de si só pode ser real, enquanto verdade de ser, e não de estar no mundo.
Desvendo que a verdade do homem (no mundo) é a verdade de estar no mundo. Por isso, a verdade do homem é a verdade de estar sempre. Enquanto se estar no mundo, vive-se da verdade de homem e toda verdade humana se justifica para se estar no mundo. A verdade de homem é convencionada, por isso pode se convencionar uma mentira como verdade, porque o que vale é o poder da convenção feita pelo homem. Porém, a verdade de homem é uma mentira para ele próprio, mas adotada como verdade para o outro porque desconhece as intenções e as circunstâncias, pelas quais, essa verdade foi convencionada e também, por haver outros fatores que os faz aceitar para estar aceito no mundo.

A verdade de meu ofício é uma verdade de homem, porque tem o tempo e a medida do próprio homem, assim como, é mutável, contraditória, paradoxal, efêmera, ilusória, fictícia, aparente, virtual, simbólica, metafórica, convencional acima de tudo. Tudo uma verdade de mentira, de faz de conta, de brincadeira qual eterna criança encantada num mundo de virtualidades na era do computador, num mundo de coisas virtuais, fictícias, utópicas de puras ilusões, metáforas e simbologias, quão efêmeras quanto à verdade de estar literalmente no mundo de Alice no País das Maravilhas, no mundo de Matrix ou na eterna mitológica caverna platônica; numa verdadeira mentira, enquanto verdade de homens de todas as idades.

M. C. Garcia é poeta e filósofo

CONTOS E LENDAS



O HOMEMORCEGOMEM

 Por M.C. GARCIA, poeta e filósofo

NUMA decrépita Biblioteca margeada por várias mangueiras, onde raras vezes aparece alguém para estudar, apesar do espaço agradável para leitura, termina atraindo outra espécie de animal: morcegos. Estes, atraídos pelo doce cheiro dos frutos, competem com um único leitor: Memor. Homem aposentado de meia idade que faz da leitura o seu lazer exclusivo.

Naquela época do ano a velha biblioteca é um lugar que atrai apenas os noctívagos que se abrigam durante o dia. Visto que o espaço fica sempre fechado eles se sentem seguros nas salas escuras.

Ao cair da tarde, Memor gosta de desfrutar a vida lendo bons livros de literatura, de preferência romances modernistas como de Jorge Amado e outros.

Certa vez estando a sós no seu taciturno mundo de de leitura, Memor sentiu um vento frio soprar-lhe a nuca. 
Um frio que lhe correu toda espinha deixando-o com os nervos a flor da pele e o coração aterrorizado, a palpitar com o súbito. Seus cabelos e pelos dos braços arrepiados eram a denúncia do seu terror. Mas logo à sua frente, descobriu a causa de tudo aquilo.

Era um morcego que num rasante de bicho alado, peitado e danado, fora pousar num caibro,




bem à vista de Memor. Lá de cima, ficou a se balançar feito pêndulo de relógio. Como se o quisesse hipnotizar para lhe sugar o precioso líquido purpúreo de humano.

Memor, aterrorizado, observa o animal e antes mesmo que ele decidisse o atacar novamente, toma iniciativa primeiro e vai à caça do pobre indefeso...

De posse do único apetrecho que tinha em mãos, deu a primeira investida atirando o chinelo de couro contra a pequena criatura, que por pouco não o acertou. Porém, o morcego nada pode entender sobre aquele ataque surpresa.

Estava tão inocente quanto o homem. Assim, como este sempre vinha à tarde ler, ele sempre fazia aquele vôo de fim de tarde. Porém, o tempo estava para chover e escurecera mais cedo. Havia se acordado para exercitar o corpo em seguida, iniciar a sua rotina de noctâmbulo. Por isso, a desgraça estava para acontecer.

Mesmo sem nada compreender, de uma coisa ele tinha certeza: tinha que escapar dos violentos ataques do enfurecido homem. E assim voou de canto a canto; voou o mais rápido que pode para não ser morto.

Porém, a fúria do homem aumentava à medida que errava seu ataque. E mais colérico voltava para dar fim ao pobre e indefeso noctívago. Este, vendo uma brecha de sobrevivência no telhado, deu um vôo direto e certeiro para escapar do cerco.

Mas, quando a alguns milésimos de segundos, já atingindo a saída, sente também atingida sua asa esquerda, que cambaleando bate na parede e se estatela no chão feito pacote fofo de nada, já sem forças, sem sentidos, sem vida.

O vitorioso homem, satisfeito por cumprir sua missão, o pegou pela asa ferida, pobre e inútil morcego, ainda quente pelo último fio de vida, o pôs dentro de um vidro com álcool para servir de exposição a centenas de leigos, ignorantes à cena cruel, como troféu de sua vitória medíocre.

Recuperado do susto e satisfeito do embate, o enigmático homem retoma sua leitura. Está a ler um romance realista digno dos tempos Modernos, estilo Jorge Amado, em que a cena se desenvolve com o namorado sendo acariciado pela sua amada. Esta, por trás dele, passa-lhe as mãos em seus cabelos e vai lhe roçando a nuca com seus lábios cálidos de desejos. Nesta hora, leitor e personagem passam a viver uma realidade fictícia na qual o próprio leitor parece se envolver muito mais e por total. Com a cena que ler, faz se sentir tão abstraído pela leitura inebriante e agradável.

Memor se faz, literalmente, personagem em vida em ato em fato. Porque se sente como próprio personagem vivendo as mesmas sensações, as mesmas delícias das carícias.

Completamente absorvido pela leitura e pela realidade que o envolve, sente um suor quente escorrer-lhe no peito e, ao mesmo tempo, a cair sobre a mesa, o livro, o chão, um líquido escarlate.

Está entorpecido pela ficção e pela realidade, procura entender se está a sonhar ou a dormir.

Despertado daquele arrebatamento e torpor, ver com toda clareza dos seus olhos que um dia Deus lhe há de ofuscar um morcego voando satisfeito, com as mandíbulas ainda ensangüentadas; com a língua a saborear daquele doce líquido escarlate de homem.

Era justamente a mulher do morcego que ele acabara de exterminar.

Ensangüentado, com a vista agora a se ofuscar, tem à sua frente mais de um morcego. E ainda de posse da mesma arma da primeira vítima, procura agir mas não consegue.

Consegue, na verdade, se ver reduzindo abruptamente de tamanho. De repente sente-se um rato a rastejar sobre a mesa, a sobejar-lhe o próprio sangue, vai consumindo as páginas daquele desgraçado e maldito livro que lhe custara a vida?

Num salto que dá de sobre a mesa, esperando cair no chão, sente-se levitar como um pássaro feliz e alegre por ter alcançado a liberdade que todo homem sonha um dia ter.

Porém, ele não é pássaro. Não é rato. Não é homem. É a própria figura de HOMEMORCEGOMEM.

Quando deixa a Biblioteca, encontra o mesmo Amor que o envolveu no romance que leu momentos antes. Tudo é muito confuso na sua cabeça.

Mas fica a certeza de que o Amor que sente lhe dá uma sensação de liberdade indescritível e de eterna leveza.

Bom, está em movimento. Porém, não consegue com clareza discernir se voa andando ou se anda voando.

M.C. GARCIA é poeta e filósofo

CRÔNICAS DE UMA CRÔNICA VIDA


SERÃO REALMENTE OS FINS DOS TEMPOS?

*M. C. Garcia


Sabe-se que o mundo no qual vivemos desde milhões e milhões de anos que as coisas não são as mesmas coisas de sempre. Percebe-se que há um dinamismo extraordinário em tudo que vemos, vivemos ou fazemos. Vejamos o processo dinâmico que é a própria vida. Eu era criança hoje não sou mais. Vejamos o processo dinâmico que é a nossa cidade, o nosso bairro, a nossa rua. Na minha época não havia água encanada nem luz elétrica e rua calçada, nem se pensar. Por exemplo, costumo dizer que nasci em Natal, no bairro de Igapó, porém, há quarenta e sete anos atrás, esse outro lado do Rio, como costumam dizer, pertencia a São Gonçalo do Amarante (percebam que não sou quão senil assim). A nossa querida Zona Norte, para mim, era o meu lugar de aventuras onde ia para mata (capoeira) tirar ubaia, mangaba, guabiraba rasteira ou guabiraba de pau, ingá, maracujá-mochila e outras coisas mais, tudo isso frutos nativos, que talvez, só nessa crônica a(o) gentil leitor(a) esteja tendo a oportunidade de saber que aqui também, um dia, já foi um verdadeiro éden. Éden este em que o meu avô e tantos outros moradores viviam da plantação de roçados onde colhiam feijão, milho, melancia, mandioca, quiabo, maxixe, macaxeira, pipino, para suas sobrevivências. Faziam farinhada e deliciosos beijus, tapiocas e bolo de mandioca. Quem há de imaginar que onde é hoje a CAERN, no Panatis II, já foi o campo de futebol mais famoso deste lado do rio, onde se deram as disputas mais acirradas entre times famosos daquela época como Igapó F. C. e América F. C. Que a fazenda de Sr. Agnaldo é onde hoje se encontram o Hipócrates e a FAL e que onde é hoje o Nordestão era a fazenda de Sr. Nelton Bacurau. O interessante em tudo isso é que os antigos moradores de Igapó e da Redinha ainda costumam dizer que estão indo para Natal, quando vão à feira do Alecrim ou ou à Cidade Alta. Não adiantou a ponte metálica de Igapó ser trocada pela de cimento, nem tampouco, a imponente ponte Newton Navarro ser construída e o povo continuará indo a Natal. Aí sim, para essa gente são realmente os fins dos tempos.

Na realidade, estamos nos fins dos tempos e o século XXI tem nos mostrado isso explicitamente de forma extraordinariamente bela, ainda para iniciar este século vimos no Brasil a aprovação da nossa Constituição quão esperada e foi a maior festa democrática que já vivemos até então; vimos a queda do muro de Berlim, o esfacelamento da União Soviética; vemos a ascensão da China mesclada de um capitalismo-socialista; vimos um operário na Europa ser eleito presidente da sua nação; vimos um Papa quebrar toda a lógica de rei ao sair pelo mundo em nome da paz levando tiro e perdoando o agressor; vimos um país da América do Sul eleger para presidência uma mulher; vimos no Brasil outro operário ser eleito presidente e depois ser reeleito, agora vemos, pela primeira vez, na história da humanidade, o USA eleger um americano que tem parte da família na África para comandar a nação mais rica do mundo, que também já foi o primeiro senador a ser eleito.

E para se consumar os fins dos tempos realmente, o Brasil terá que se tornar uma potência, pois tem condições para isso, diante a grande crise econômica que está a incomodar o império americano nortista, ou seja, em ter que eleger no próximo pleito para a presidência uma mulher e, aqui em Natal, quem sabe, um filósofo para a Câmara Municipal. Assim sendo, estaremos realmente nos fins dos tempos RUINS, dos tempos das TEMPESTADES para vivermos o começo dos tempos BONS, dos tempos da BONANÇA. Os tempos dos arranha-céus, do shopping center, dos espaços de cultura, das bibliotecas, das lan house, do anime, do cosplay, do saneamento básico, do trabalho para todos, da solidariedade entre cristãos e não-cristãos e, acima de tudo, da consciência política aqui, desse outro lado de Natal, a nossa verdadeira NOVA NATAL e não simplesmente Zona Norte com a conotação de município, como alguns ainda insistem para que não aconteça os fins dos tempos...



*M. C. Garcia é poeta e filósofo.